28/05/2009

Ônibus de graça?!

Por Kenny Rogers
Estava eu em casa após um dia agitado no Projeto Arrastão pensando o que eu poderia oferecer ao blog em termos de conteúdo, já que essa seria a minha primeira postagem. Daí que surgiu a idéia: se o blog é feito por jovens com um conteúdo jovem, então porque não fazer uma matéria com um assunto que os interessem? Porém é uma idéia meio que batida falar pros jovens coisas de jovem. Fiquei em frente ao meu computador matutando a cabeça pensando no que escrever. Quando surgiu um espírito nostálgico de mudança que a juventude tinha antigamente na época da ditadura, Diretas Já e outros movimentos estudantis, e percebi que entre nós está faltando esse espírito de mudança e organização. Nós jovens esquecemos que temos o poder de mudar o mundo (não generalizando) e por coincidência estava tendo um bate papo pelo MSN com a Erica, 18 anos, técnica em Museologia e militante do MPL (Movimento Passe Livre). Um movimento social horizontal, apartidário, que luta por um transporte público gratuito e de qualidade. Mais do que isso, o movimento discute a questão da cidade como direito. Então pergunta vai e pergunta vem, e o nosso bate-papo resultou em uma entrevista muito esclarecedora, que posto agora no “NossaMaré”.

(Kenny Rogers) O que seriam as questões da cidade que o MPL defende?

(Erica O.) Bom, nós acreditamos que se o individuo para se locomover pela cidade e para ter acesso ao direito (como saúde, educação, lazer, cultura), ele precisa pagar R$2,30 ele está restrito. Pois grande parte da população não tem condições de pagar o transporte, e, além disso, acreditamos que o transporte deve ser entendido como direito, assim como ir ao hospital. Além disso, tem a ver com a noção de público: se o transporte é mesmo público, por que pagamos ao entrar nele? No entanto, não se trata apenas de uma questão de transporte de graça! O transporte não é de graça! Mesmo que não haja tarifa, o transporte tem um custo só que esse custo não precisa ser cobrado diretamente dos usuários. Existem alternativas.

(Kenny Rogers) Se o custo não vier dos usuários como é que seriam financiados esses custos? Quais são essas alternativas?

(Erica O.) Nós temos uma proposta, acreditamos que todos devem construir a cidade em que vivem e decidir sobre as questões desta. A nossa idéia é a seguinte: nós acreditamos que o transporte pode ser pago através de impostos progressivos. O que isso quer dizer? Quer dizer que, quem tem mais paga mais, quem tem menos paga menos e quem não tem não paga. Tudo isso através de um aumento de IPTU progressivo, o transporte pode ser pago através do aumento do IPVA. Claro, progressivamente. A partir daí o transporte pode existir sem tarifa para o usuário. A idéia é que o passe livre seja para todos.

(Kenny Rogers) O dinheiro que o usuário gastaria para custear a sua condução ele gastará em impostos?

(Erica O.) Não, porque o imposto é progressivo. Todos nós pagamos impostos, no entanto, esse aumento de imposto afeta apenas as camadas médias e altas e o IPTU não é igual pra todos. Existem muitas pessoas que são isentas. Não é a população pobre quem paga por esse aumento; são shoppings, bancos, empresas e indústrias. São eles que devem custear o transporte as pessoas das camadas mais baixas não seriam afetadas muito pelo contrário.

(Kenny Rogers) Então, com aumento dos impostos das indústrias, shoppings, empresas e etc., será possível financiar todo o transporte público?

(Erica O.) Seria. E quando você rompe com a catraca, quando você deixa de restringir o direito de ir e vir das pessoas, elas passam a ter direito a outros direitos.

(Kenny Rogers) Como o MPL mobiliza a população para difundir os seus ideais?

(Erica O.) O movimento faz trabalhos em escolas, comunidades e ações diretas. Os trabalhos em escolas e comunidades consistem em atividades, muitas vezes com vídeos, que discutam a questão do transporte. As ações diretas podem ser atos; como o catracaços.

(Kenny Rogers) Dentro do movimento você seria uma militante ou tem uma outra nomenclatura?

(Erica O.) Sim somos todos militantes. No movimento não há líderes. As discussões são feitas de igual pra igual.

(Kenny Rogers) Como que um jovem que esteja interessado em participar das discussões,atividades ou queira conhecer mais sobre o MPL pode se informar sobre o que está acontecendo?

(Erica O.) Nós estamos construindo um site, mas a pessoa pode mandar um e-mail para mpl-sp@riseup.net e ai nós fazemos reuniões sempre para discutir as nossas atividades. Qualquer um pode entrar em contato com o movimento, conversar e tal, pode participar.

(Kenny Rogers) Essa entrevista será postada em um blog onde muitos jovens têm acesso. Qual mensagem que você gostaria de deixar para os jovens de hoje em dia?

(Erica O.) Bem, não acho que seja uma mensagem. Acho que as pessoas podem sim discutir os assuntos da cidade. Podem sim decidir sobre a organização da cidade e que nós podemos ter um transporte mais justo e qualificado, que a ausência de tarifa significa liberdade de locomoção. Porém, mais do que isso, é um rompimento de paradigmas é pensar no que é público hoje em dia por que temos ai o transporte nas mãos de empresas, que como qualquer empresa procura seu lucro e pronto. E faz de um direito uma mercadoria. Acho que nós podemos sim romper com isso não importa se as pessoas se organizem conosco ou não o que importa e se organizarem. A gente não quer que as pessoas entrem necessariamente pro MPL, mas que a questão esteja posta. É isso.

Para entrar em contato com Erica: ericaa@riseup.net



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